Sobre ansiedade

Prefácio

Eu ponho a culpa toda no anjo torto que apareceu quando eu nasci e disse “vai Carlos, ser Gauche na vida”. E eu não entendi bulhufas, porque, obviamente, meu nome não é Carlos, nem meu alter ego até onde eu saiba. Vai ver eu tenho aquele distúrbio em que você é outra pessoa completamente diferente de noite e não se lembra de nada, e quando eu acho que estou dormindo na verdade eu estou andando pela cidade sendo a reencarnação do Drummond. Eu nunca me vi dormindo pra saber. Além disso, eu também não sei o que é Gauche – não tinha um anjo que falava português não Jesus?? Com uma mensagem dessas não se admira que eu passei o resto da vida com uma parte da minha cabeça única e totalmente reservada a resolver esse mistério.

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Eu amo cafeína.

É um jeito estranho de começar um relato epifânico* sobre minha ansiedade, mas é o que há. O engraçado (ou não) é que eu detesto café. Só consigo beber aquela coisa com bolos de açúcar, dois litros de leite por colher da bebida e se possível chantilly no topo, e eu detesto o gosto amargo que sobra na boca. Mas eu amo a sensação pulsante que fica no eu peito depois (provavelmente por causa da minha taquicardia) e eu entro numa onda de felicidade compulsiva pela próxima hora. Depois eu desabo. E depois meu peito começa a me martelar porque a taquicardia está ficando elevada e minha sensação de felicidade que estava disfarçando isso resolveu sumir de repente. Isso faz com que minha taxa de ansiedade também suba horrores (por que sim, aparentemente) o que faz com que meus batimentos cheguem a 140 (e eu tenho que parar de usar a função do relógio que calcula os batimentos) porque de repente meus batimentos aumentaram e meu peito dói e eu estou tendo uma crise de pânico por causa da ansiedade de estar morrendo por taquicardia, e eu continuo apertando o medidor no meu relógio e a bateria do relógio está acabando e eu morri porque a bateria acabou então meu batimento agora é zero e puta merda, eu vou ter que ir para o hospital e eu tenho pânico de hospitais, então eu nobremente digo que fodeu e me escondo debaixo do armário do banheiro sem mexer e rezando para que ninguém me encontre nunca mais.

É o tipo de merda que aparece na minha cabeça o tempo todo.  

*(caro corretor ortográfico, epifânico é uma palavra maravilhosa que existe porque eu disse que sim, adeque-se à minha veemente e a hábil manipulação de neologismos)

Na maioria das vezes eu aprendi a lidar com isso melhor. Eu aprendi a não tomar mais café quando eu preciso fazer trabalhos, mesmo que isso me deixe alegrezona e dando pulinhos pela melhor parte de uma hora (sério, pulinhos). Cafeína e eu temos uma relação típica de dependentes de drogas e hoje eu ainda consumo em pequenas doses com uma coca cola (se não for a zero ainda tem um bônus da bomba de açúcar- e três quilos a mais - OH mundo cruel) isso me deixa acordada e sentindo funcional quando eu só quero sumir do planeta mas tenho coisas pra fazer e se eu não fizer essas coisas eu vou ficar mais ansiosa porque eu TENHO que fazer essas coisas.

Eu já tentei o método do foda-se.

Tentei por um ano levar a coisa mais light. Tive uma das piores crises que já tive na vida. Eu gosto de ser organizada, mas aprendi a ser organizada (na medida do possível) a um ritmo e de um jeito que não me faça ter que achar uma mesa na qual me esconder.

Eu já fui muitas coisas na minha cabeça. Inclusive nada. Ser nada é uma das coisas mais dolorosas que eu já experimentei. É andar pela rua e por um milésimo de segundo perceber que não consegue completar a letra da sua música preferida quando era criança; é por aquele átimo ínfimo perceber que leva um tempinho pra lembrar seu primeiro nome porque seu inconsciente está muito ocupado sendo triste. Isso aparece. E dói. E é sozinho e vazio e minha cabeça parece estar num estado opaco cinza, como se estivesse cheia de fumaça, mas uma fumaça tão densa que o gás é rígido. Escrevi a umas semanas que eu não tenho controle do que eu penso quando eu quero morrer, e que dói ainda mais porque tem uma parte de mim que não quer morrer de jeito nenhum e isso me dilacera. Passe uma hora, um dia, uma semana e eu estou falando mal daquela versão de mim que acreditou naquilo, mas, quando você tem essa sensação uma, duas, três vezes por ano e não fica mais fácil pra você perceber que a depressão mente na hora que ela aparece, quer dizer que tem algo errado por ali. Tem algo fora do meu alcance e do meu controle e eu não seu quanto tempo isso vai ser assim. Por enquanto meu método de controle são pílulas. Duas cápsulas disso e dois comprimidos daquilo e aquele remédio homeopático que a prima de 3º grau da minha vizinha usava, e aquele comprimido de extrato de maracujá. Talvez um dia não seja assim, talvez um dia eu consiga lidar com isso durante a maior parte do ano sem usar nada, e quando a coisa ficar feia usar um remédio para estabilizar. Eu já me incomodei mais por causa disso (muito mais)

Mas eu sei que passa. Teve vezes que eu fiquei exausta porque toda vez que o pânico volta ou que a depressão volta uma partezinha de mim morre. Fato é que morremos todo dia. Todas as nossas células que vão embora. Mas também tem uma parte que nasce e multiplica e regenera. Diferente do conjunto, mas parte dele.

Não vou dizer que consciente e inconscientemente terei pleno acesso a esse manifesto racional feito pra minha loucura. (Note que tenho, sim, orgulho de ser levemente naturalmente doida, é para poucos). Mas eu estou tentando. E cada vez eu aprendo um truque novo. Desde a 200ml de Pepsi a 200ml de coca zero porque com os remédios aquele açúcar todo vai te engordar (o que você estava pensando Bia?). Até qual remédio funciona ou não funciona. Até o fato de que às vezes (eu sei, é frustrante) mas, aceitar que as vezes o tratamento que vinha funcionando pode não funcionar mais. Aceitar que às vezes eu preciso sair e andar por 10km sem destino antes de voltar para casa porque eu simplesmente não sinto que vou conseguir lidar com estar ali naquele momento. Às vezes é saber que eu preciso andar e cansar até que o cansaço não me deixe lembrar que eu não tinha lembrado o resto da letra da música e que naquela hora aquilo foi a coisa mais devastadora que me aconteceu. Às vezes é aceitar que eu preciso sair da aula e sentar na livraria do CCBB até que eu me acalme. Às vezes é descer de elevador 10 andares abaixo do meu e subir o resto de escada porque não quero lidar com meu quarto agora (estamos brigados, sabe). Às vezes é saber o equilíbrio entre as coisas que não vão me fazer sentir bem em termos de saúde mental e portanto devo evitar, e as coisas das quais eu estou com um medo mortal incompreensível, mas que eu tenho que fazer porque é o que eu quero fazer. Às vezes é não me julgar tanto quando eu tento decidir se estou me sabotando ou não ao tomar uma decisão dessas.

Às vezes é simplesmente ficar deitada porque é tudo que eu consigo fazer, até que a sensação de ser uma das moças presas em um quadro do Matisse passe. Até que eu consiga pegar meu telefone e ligar para o meu pai só para conversar até o remédio fazer efeito. É um saco. Preocupa todo mundo, e eu mais ainda, mas às vezes é o que dá no momento. É o que dá e passa.

Passa porque já passou, uma, duas, dez, cem vezes, talvez mais.

De vez em quando é engolir o medo de que da próxima vez que acontecer eu não vou sobreviver.

Tudo isso é difícil. Mas, por outro lado, todos esses itens um dia foram impossíveis, e, a cada vez que eu saí de uma crise, um deles pelo menos aconteceu para que eu acordasse no dia seguinte e levantasse da cama.

Honestamente, é exaustivo ser eu. Mas eu não sei ser outra pessoa. Isso quer dizer que eu tenho que achar alguma maneira de conseguir viver – eu culpo Darwin. É exaustivo quando eu volto a passar mal, mesmo que seja mais leve que da vez anterior, e nas últimas semanas tem acontecido isso. Isso de acordar me sentindo tão profundamente arrasada que o mundo lá fora perde o sal. E eu levo uma hora ou mais pra me ajustar.  É exaustivo porque um dia eu estou mal então eu saio pra caminhar e andar e andar até que eu esteja bem, no outro dia eu estou bem e me sinto bem por estar bem e tudo fica melhor até que de noite de repente eu estou presa no sofá jogando paciência no computador por sete horas e eu percebo que eu estou presa e não estou bem. Então eu começo a chorar e querer achar lugares para me esconder.

Mas eu durmo e acordo e tudo bem. Tudo levemente bem porque eu comprei um chapéu de pelúcia da cabeça de um lobo e sair na rua com aquilo me faz sentir estupidamente feliz.

Às vezes eu faço essa coisa de me fazer feliz só de raiva. Isso normalmente envolve fazer coisas fora da curva de normalidade da maioria das pessoas, o que, pra ser honesta, dá as melhores histórias. Com isso eu quero dizer daquela vez que passei quase duas horas organizando os dvds da Americanas em ordem alfabética. Ou da vez que eu entrei em uma loja de artigos de festas e comprei uma coroa dourada (porque achei que seria levemente estranho sair dali com um balão de hélio com a minha inicial. Ou da vez que comecei a bater papo com uma Ph.D. de história da Universidade da Florença sem sabre falar duas vírgulas em italiano. Mas dane-se, da próxima vez que eu começar a virar uma desculpa de sopão aguado humano eu vou comprar um balãozão* escrito feliz aniversário e ele vai ser dourado com florzinhas**. Ás vezes envolve achar um livro para ler e tentar segurar gargalhadas no ônibus enquanto pessoas questionam sua sanidade – elas estão absolutamente corretas, mas eu estou bem obrigada.

*Caro auto corretor – siga o meu fluxo – balaozão é uma palavra cuja etimologia descende do Latim – Mezus Narizus Narigudium– que quer dizer que eu disse que é assim e se está todo mundo me entendendo perfeitamente então, por lei, deveria ser automaticamente reconhecido até pelo pessoal do Dicionário Aurélio. Então, se quer discutir minha legitimidade, sugiro que busque um advogado para refutar minha lei romana. ***

**Por favor confira suas referências porque, claramente, o plural de florzinha é indiscutivelmente florzinhas e não florezinhas; por favor, você está se envergonhando com a falta de conhecimento da língua portuguesa.

*** Os romanos são o máximo. Quer dizer, a não ser por aquela coisa das pessoas mortas e escravos e guerras e afins. Mas sobre quem a gente não pode dizer isso?

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