O crush (querida)

Querida.

Ele me chamou de querida. Querida como a  paroxítona da língua portuguesa cujas sílabas três podem ser divididas em QUE-RI-DA.   Querida como a palavra falada para uma menina de 5 anos com olhinhos pidões. Querida como o pronome de tratamento daqueles bem anos 4o. ( A dona de casa que passou o dia num suicídio social numa cozinha miserável com inovações tecnológicas que aprisionam, bem no declínio dos 40, com filhos para cuidar e o marido insatisfeito chega em casa todo ideias que não faz nada a esposa e , querendo jantar, requere no implícito: Querida, cheguei. Enquanto ela responde por inércia que está pronta a janta.) Querida como aquilo que lhe diz o geriatra quando é você a paciente. Querida como o semi-pronome irônico enraizado no vocabulário feminino quando a confabular com desgosto com alguém que desgostam, maximizado em seu ódio pela versão sufixada - queridinha.Querida como quem não quer nada (mas quer algo mesmo assim). Querida como quando se quer falar que alguém está sendo estrondosamente ignara mas decide-se usar uma palavra para amenizar a ferida(ela é,afinal, muito burra para sequer entender que é burra, a coitada). Querida como querida. Querida como hipócrita.

Querida sua mãe.

Absurdo tudo isso.

Eu tenho nojo de querida.

   Querida como ele chama a tantas outras. Querida como aquele estúpido. Aquele idiota. Humpft… ‘querida’.

Comentários

  1. Minas Gerais, 17 de setembro de 2016

    Prezada moça, do latim - Beatus - “a que traz felicidade”

    Eu tenho orgulho em abraçar suas palavras, são ordenadas de forma prismática, promovendo sua difração quando em conjunto umas com as outras. Há luz nas suas palavras.
    Um abraço
    Te amo para a vida toda!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Desculpe se eu perdi sua festa (um poeminha autoral)

Enfim...