O espaço de uma carta
Olá estranho,
Sabe, em algum momento de minha vida uma professora de português usou seu tempo para me ensinar sobre como escrever uma carta. E eu me lembro vagamente da necessidade que a regra impunha de se saltar linhas específicas. Todas as línguas, como qualquer um que já tenha se aventurado, mesmo que pouco, na área pode ter percebido tem suas peculiaridades. E uma que me é mais estranha é a imposição de que linhas sejam saltadas ao se escrever uma carta.
Isso talvez seja peculiar por uma série de motivos que talvez lhe estejam perpassando a cabeça, o prmeiro irremediavelmente é:
1-) Ninguém mais escreve cartas,
E você está plenamente certo. E eu não serei hipócrita de admitir que o faço, quando nunca, mas nunca mesmo, escrevi uma carta, ainda que tenha sido uma importantantíssima forma de comunicaçãopor séculos na história humana e eu as ache muito poético, ser poético por si só não faz ninguém que eu conheça ter o ânimo necessário para ir até os correios e ainda por cima pagar pelo envio quando o whatsapp está à disposição (mais tarde comentarei sobre o whatsapp);
2-) E, só deixando claro, Não, isso não é uma forma estranha de tentar incentivar pessoas a escreverem cartas, nem uma iniciativa de golpe às redes sociais de nossa amada internet.
Fato é que minha preocupação não se trata de fato de uma preocupação, mas de uma mera curiosidade. A curiosidade, por acaso, não lhe toca a cabeça por motivos desconhecidos de vez em quando? Por qual motivo devemos soltar uma linha após escrevermos onde estamos e qual a data numa carta? Quem criou esse padrão?
Sim, sei bem que a carta é uma invenção bem mais antiga que isso, mas imagine uma daquelas personagens de Jane Austen, daquelas garotas da Inglaterra vitoriana que, com poucas atrações na vida além de um eventual casamento, baseavam toda a agitação na chegada de uma carta com notícias.
Nem sequer precisamos ir tão longe. Essa coisa de internet e telefone é hoje tão banal que parece fácil esquecer, mas é muito mais recente do que parece. E, mesmo que você, como eu, não tenha pertencido a isso, seus pais, avós, tios, tias, afins e batatas trocavam cartas.
Eu nunca perguntei a meus pais se eles soltavam a tão famosa linha quando escreviam cartas, se eles se preocuvam com isso. Era tão difícil de se mandar notícias, o papel era tão caro, era mesmo necessária formalidade tal que exigisse a redução de meu conteúdo em uma linha? Numa linha eu poderia escrever sem restrições e espaço uma série de adjetivos que determinassem com maior precisão a cor de um novo vestido, ou como o novo viziho é bonito. Aflições que hoje não nos vêm fácil, e nem bem podem ser compreendidas pelo sexo masculino, mas a falta de lugar para contar tudo é um mal para muitas mulheres. Isso só me leva a crer que quem inventou tal ridículo padrão de etiqueta era um homem. E que homem sem coração, como poderia a senhorita Carlota comunicar propriamente de como eram bonitos e verdes e profundos e idiossincráticos e misteriosos e calados e únicos os olhos de Abelardo, sem se preocupar com a falta de espaço para falar de sua nova receita de pudim à amiga Joaquina? Pois, veja, Joaquina era da cidade, moça fina, que ofensa não seria evitar saltar aquela linha, talvez ela nem mesmo viesse visitá-la no próximo agosto, ora, que amiga! Para evitar dores, uma série inteira de Carlotas tiveram que escrever que Abelardinho tinha olhos verdes, e se odiavam as Carlotas por não terem feito jus ao secreto amado, blasfêmia. Visse ele isso e ia embora qualquer ideia de um dia se casarem.
E assim foi essa linha esse espaço atrapalhando gerações e gerações mais, até que hoje foram pro espaço, ninguém mais liga pra fatídica linha, mas a professora de português me falou dela, e eu aprendi na época porque, não há como expressar melhor, valia ponto.
Sabe, em algum momento de minha vida uma professora de português usou seu tempo para me ensinar sobre como escrever uma carta. E eu me lembro vagamente da necessidade que a regra impunha de se saltar linhas específicas. Todas as línguas, como qualquer um que já tenha se aventurado, mesmo que pouco, na área pode ter percebido tem suas peculiaridades. E uma que me é mais estranha é a imposição de que linhas sejam saltadas ao se escrever uma carta.
Isso talvez seja peculiar por uma série de motivos que talvez lhe estejam perpassando a cabeça, o prmeiro irremediavelmente é:
1-) Ninguém mais escreve cartas,
E você está plenamente certo. E eu não serei hipócrita de admitir que o faço, quando nunca, mas nunca mesmo, escrevi uma carta, ainda que tenha sido uma importantantíssima forma de comunicaçãopor séculos na história humana e eu as ache muito poético, ser poético por si só não faz ninguém que eu conheça ter o ânimo necessário para ir até os correios e ainda por cima pagar pelo envio quando o whatsapp está à disposição (mais tarde comentarei sobre o whatsapp);
2-) E, só deixando claro, Não, isso não é uma forma estranha de tentar incentivar pessoas a escreverem cartas, nem uma iniciativa de golpe às redes sociais de nossa amada internet.
Fato é que minha preocupação não se trata de fato de uma preocupação, mas de uma mera curiosidade. A curiosidade, por acaso, não lhe toca a cabeça por motivos desconhecidos de vez em quando? Por qual motivo devemos soltar uma linha após escrevermos onde estamos e qual a data numa carta? Quem criou esse padrão?
Sim, sei bem que a carta é uma invenção bem mais antiga que isso, mas imagine uma daquelas personagens de Jane Austen, daquelas garotas da Inglaterra vitoriana que, com poucas atrações na vida além de um eventual casamento, baseavam toda a agitação na chegada de uma carta com notícias.
Nem sequer precisamos ir tão longe. Essa coisa de internet e telefone é hoje tão banal que parece fácil esquecer, mas é muito mais recente do que parece. E, mesmo que você, como eu, não tenha pertencido a isso, seus pais, avós, tios, tias, afins e batatas trocavam cartas.
Eu nunca perguntei a meus pais se eles soltavam a tão famosa linha quando escreviam cartas, se eles se preocuvam com isso. Era tão difícil de se mandar notícias, o papel era tão caro, era mesmo necessária formalidade tal que exigisse a redução de meu conteúdo em uma linha? Numa linha eu poderia escrever sem restrições e espaço uma série de adjetivos que determinassem com maior precisão a cor de um novo vestido, ou como o novo viziho é bonito. Aflições que hoje não nos vêm fácil, e nem bem podem ser compreendidas pelo sexo masculino, mas a falta de lugar para contar tudo é um mal para muitas mulheres. Isso só me leva a crer que quem inventou tal ridículo padrão de etiqueta era um homem. E que homem sem coração, como poderia a senhorita Carlota comunicar propriamente de como eram bonitos e verdes e profundos e idiossincráticos e misteriosos e calados e únicos os olhos de Abelardo, sem se preocupar com a falta de espaço para falar de sua nova receita de pudim à amiga Joaquina? Pois, veja, Joaquina era da cidade, moça fina, que ofensa não seria evitar saltar aquela linha, talvez ela nem mesmo viesse visitá-la no próximo agosto, ora, que amiga! Para evitar dores, uma série inteira de Carlotas tiveram que escrever que Abelardinho tinha olhos verdes, e se odiavam as Carlotas por não terem feito jus ao secreto amado, blasfêmia. Visse ele isso e ia embora qualquer ideia de um dia se casarem.
E assim foi essa linha esse espaço atrapalhando gerações e gerações mais, até que hoje foram pro espaço, ninguém mais liga pra fatídica linha, mas a professora de português me falou dela, e eu aprendi na época porque, não há como expressar melhor, valia ponto.
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