Falando interiorana
Em cidade pequena as notícias arrastam, nunca se alastram,
elas andam, caminham, mas, como a sertaneja que migra resistente, dura, e, se
você tem uma história numa cidade pequena, se sua vida é no interior mineiro,
então devia saber que a pobre Joaninha não deveria ter fugido daquela maneira
abrupta sem que, pelas próximas três gerações, sua história fosse recontada.
Então, interiorana, viva sua vida quieta, não queime os jantares, satisfaça o
marido, e seja alguém cuja história se apagará num caixão.
A todas as interioranas, a vida viu-se pacata e imortal até
o momento implícito em que acordam cedo, quase madrugada, o marido quer café
pela manhã, e o almoço tem que ser preparado para a escola das crianças. Ah!, a
mulher interiorana, é o preço que se paga pra ter um cheque próprio, com seu
nome próprio, e por seu próprio mérito. Ensinar é o que há, ensinar aquelas
crianças todas, crianças tolas, mas crianças que deviam aprender a deixar de
ser tolas. Mulher interiorana, ah, que graça, ah, que ares do inferno, mais um
dia na graça de um anonimato que vem e virá, um anonimato.
Sete dias de sofrimento, a família vai chorar, e vão contar
histórias poucas da mulher interiorana... a mulher interiorana vai morrer mais
que a pior morte, só um nome numa lápide, só um nome que se apagará e histórias
que cessarão... é assim que foi, é assim que fora, é assim que o é.
Ela levantou, dois meses depois de casar, e decidiu entrar
para a história daquelas gerações próximas, o ventre ainda livre, a mente por
vez pesada, mas o peito não amava, a face não chorava, as aulas não davam
certo.
Ela chorou pela Joana que morria na lápide e pensou no canto
da mente sobre Gustavinho. Gustavinho que se morda.
Ela se levantou, subiu num trem e foi pra São Paulo, a
interiorana quis virar gente.
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